Aug 30, 2011
[…] a formulação ‘comparação de enunciado e fato’ não está livre de objeções […] a formulação em termos de ‘comparação’, falando de ‘fatos’ ou ‘realidades’, facilmente conduz à visão absolutista, de acordo com a qual se diz que procuramos por uma realidade absoluta cuja natureza é assumida como fixada independentemente da linguagem escolhida para sua descrição. A resposta a uma questão concernente à realidade depende, contudo, não somente daquela ‘realidade’ ou dos fatos, mas também da estrutura (e do conjunto de conceitos) da linguagem usada para sua descrição. Ao se traduzir de uma linguagem para outra, o conteúdo factual de um enunciado empírico nem sempre pode ser preservado sem mudanças. Tais mudanças são inevitáveis se as estruturas das duas linguagens diferem em aspectos essenciais. Por exemplo: enquanto muitos enunciados da Física moderna são completamente traduzíveis a enunciados da Física clássica, isso não acontece, ou só acontece de modo incompleto, com outros enunciados. Essa situação se dá quando o enunciado em questão contém conceitos que simplesmente não ocorrem na Física clássica (como, por exemplo, ‘função de onda’ ou ‘quantização’). O ponto essencial é que esses conceitos também não podem ser incluídos, uma vez que pressupõem uma diferente forma de linguagem. Isso se torna ainda mais óbvio se consideramos a possibilidade de uma linguagem com uma ordem espaço-temporal descontínua que poderia ser adotada em uma Física futura. Nesse caso, evidentemente, alguns enunciados da Física clássica não poderiam ser traduzidos na nova linguagem e outros só o poderiam ser parcialmente. (Isso não significa apenas que enunciados previamente aceitos teriam que ser rejeitados, mas também que para certos enunciados − independentemente de serem tomados por verdadeiros ou falsos − não há de modo algum enunciados correspondentes na nova linguagem).(CARNAP, 1949, pp. 125-126) - Truth and confirmation.
Aug 10, 2011
A intelectualização e a racionalização geral não significam, pois, um maior conhecimento geral das condições da vida, mas algo de muito diverso: o saber ou a crença em que, se alguém simplesmente quisesse, poderia, em qualquer momento, experimentar que, em princípio, não há poderes ocultos e imprevisíveis, que nela interfiram; que, pelo contrário, todas as coisas podem – em princípio - ser dominadas mediante o cálculo. Quer isto dizer: o desencantamento do mundo.WEBER, M. Ciência como vocação, pg. 13.
Jul 7, 2011
Entre querer e alcançar flui sem cessar toda vida humana. O desejo, por sua própria natureza, é dor; já a satisfação logo provoca saciedade: o fim fora apenas aparente: a posse elimina a excitação, porém o desejo, a necessidade aparece em nova figura; quando não, segue-se o langor, o vazio, o tédio, contra os quais a luta é atormentadora quanto contra a necessidade. - Quando desejo e satisfação se alternam em intervalos não muito curtos nem muito longos, o sofrimento ocasionado por eles é diminuído ao mais baixo grau, fazendo o decurso de vida o mais feliz possível. Aquilo que se poderia nomear o lado mais belo e a pura alegria da vida, precisamente porque nos arranca da existência real e nos transforma em espectadores desinteressados diante dela, é o puro conhecimento que permanece alheio a todo querer; é a fruição do belo, a alegria autêntica na arte. Mas mesmo isso requer dispositivos raros e cabe apenas a pouquíssimos e, mesmo para estes, é um sonho passageiro. Ademais, justamente as elevadas faculdades espirituais desses poucos os tornam suscetíveis a sofrimento bem maiores que aqueles que os obtusos jamais podem sentir, e os coloca, dessa forma, solitários entre seres marcadamente diferentes, pelo que, ao fim, as coisas se equilibram. Todavia, para a maioria dos homens as fruições intelectuais. Eles são quase incapazes de alegria no puro conhecimento: estão completamente entregues ao querer. Se, portanto, algo lhes granjeia a simpatia e deve ser INTERESSANTE (o que já se encontra na significação da palavra), tem de algum modo de lhes estimular a VONTADE, mesmo que só numa relação distante, situada só nos limites da possibilidade. Vontade que jamais pode ficar fora de jogo, porque a existência desses homens está mais no querer do que no conhecer: ação e reação são seu único elemento. Exteririozações ingênuas // dessa índole podem ser vistas em minudências cotidianas, como, p.ex., escrever seus nomes em lugares conhecidos que visitam, com o fito de reagir, fazer efeito sobre o lugar, pois este não faz efeitos sobre eles. Também não podem com facilidade considerar um animal exótico, raro, mas têm de excitá-lo, cutucá-lo, provocá-lo com brincadeiras, para simplesmente experimentar ação e reação. Essa necessidade de estimulação volitiva se mostra em especial na invenção e prática dos jogos de carta que, no sentido mais próprio do termo, são expressão do lado deplorável da humanidade.
SCHOPENHAUER, O mundo como vontade e representação. 404-405
Jun 19, 2011
Mais ainda: quão poucos motivos teremos para confiar na nossa razão se, num dos pontos mais importantes do nosso desejo de saber, não só nos abandona como nos ludibria com miragens, acabando por nos enganar!Crítica da Razão Pura. Prefácio da segunda edição (1787). B XVI
May 19, 2011
Qualquer tentativa de jogar tudo fora ou de modificar as coisas arbitrariamente leva a uma extrema confusão. Na ciência, somente um fanático enlouquecido […] tentaria derrubar tudo, e nem é preciso dizer que essas tentativas dão em nada. Não sei se as revoluções científicas podem ser comparadas às revoluções sociais, mas desconfio que, ao longo da história, as revoluções mais duradouras e benéficas foram as destinadas a atender problemas claramente definidos, deixando o resto rigorosamente em paz.HEISENBERG,Werner. A parte e o todo: encontros e conversas sobre física, filosofia, religião e política. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
May 6, 2011
a quem não é capaz de suportar virilmente esse destino de nossa época, só cabe dar o conselho seguinte: volta em silêncio, sem dar a teu gesto a publicidade habitual dos renegados, com simplicidade e recolhimento, aos braços abertos e cheios de misericórdia das velhas igrejasCiência como Vocação, Max Weber. pg 51
Apr 11, 2011
It is obvious that there is a difference between the meanings of the instrumentalist and the realist ways of speaking. My own view, which I shall not elaborate here is that the conflict between the two approaches [realism and instrumentalism] is essentially linguistic. It is a question of which way of speaking is to be preferred under given circumstances. To say that a theory is a reliable instrument – that is, that the predictions of observable events that it yields will be confirmed – is essentially the same as saying that the theory is true and that the theoretical, unobservable entities it speaks about exist. Thus, there is no incompatibility between the thesis of the instrumentalist and that of the realist. At least so long as the former avoids such negative assertions as, ‘ … but the theory does not consist of sentences which are either true or false, and the atoms, electrons and the like do not really exist’Stathis Psillos (2000). Carnap, the Ramsey-Sentence and Realistic Empiricism. Erkenntnis 52 (2):253-279. Citando Carnap, R.: 1966, Philosophical Foundations of Physics, Basic Books, New York. pg. 256
Apr 11, 2011
Carnap masterly refrains from saying anything about the issue of factual reference of theoretical terms, although he acknowledges that T-terms have excess meaning, and that they contribute to the experiential output of the theory. He also distances himself from the strict instrumentalist view of theories which takes the theoretical ‘superstructure’ to be a merely syntactic construct. Yet, he seems keen to endorse double existential standards: assertions about observable events as well as assertions about particular theoretical entities are truth-valued and, if true, they imply certain existential commitments. But assertions concerning the reality of a system of entities as a whole are of a different kind. They should be under- stood as questions concerning the acceptance of a certain logico-linguistic framework.Stathis Psillos (2000). Carnap, the Ramsey-Sentence and Realistic Empiricism. Erkenntnis 52 (2):253-279.
Mar 18, 2011
Ri nervosamente nesse inícios. Depois fui ficando sério. Sensação de aperto, algo caindo dos bolsos para o chão onde nada havia. Um fundo escorregadio sumia um muro inteiro deixando um pátio nu.
Assim na terra, Luiz Sérgio Metz
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